A curva ABC de estoque ajuda a descobrir quais produtos merecem mais atenção na rotina de compras. Em vez de dividir o dinheiro igualmente entre tudo que está na prateleira, você classifica os itens pela participação em um resultado escolhido, como o faturamento.
A utilidade aparece quando o orçamento de reposição é curto. Uma loja pode ter dezenas de produtos disponíveis e, ainda assim, perder vendas porque justamente os itens mais relevantes ficaram sem estoque. A classificação organiza essa conversa, mas precisa ser combinada com prazo de entrega, margem e procura.
Neste guia, o cálculo será feito por faturamento. A tabela usa uma loja fictícia de utilidades domésticas; os números foram criados para demonstrar o método e não representam uma pesquisa de mercado.
O que as classes A, B e C mostram
Na análise ABC, a classe A reúne os itens que concentram a maior parcela do valor analisado. A classe B ocupa uma faixa intermediária. A classe C representa a parcela restante.
É uma classificação relativa: um produto pode ser A por faturamento e ter outra posição quando a análise considera dinheiro investido em estoque. O Sebrae Minas explica que a ferramenta admite critérios diferentes. Por isso, escreva o critério no nome do relatório, como “ABC por faturamento dos últimos 90 dias”.
Não existe obrigação de que exatamente 20% dos produtos concentrem 80% das vendas. Os cortes são parâmetros de trabalho. A documentação da Alterdata, por exemplo, permite configurar percentuais e critérios de análise. Copiar o corte de outro sistema sem conferir como ele funciona pode produzir uma classificação diferente da sua planilha.
Aqui adotaremos uma regra simples: A até 80% do faturamento acumulado, B acima de 80% até 95% e C acima de 95%. Esses limites servem ao exemplo, não são uma regra para todas as lojas.
Como calcular a curva ABC de estoque
Você precisa de um relatório de vendas por produto, com quantidade e valor vendido no mesmo período. Use um código para cada item e defina como tratar variações, descontos e devoluções.
Uma camiseta azul tamanho M pode ter giro diferente da mesma camiseta no tamanho GG. Agrupar tudo em “camisetas” facilita o relatório, mas pode esconder a falta de uma variação importante. Escolha um nível de detalhe que permita decidir a próxima compra.
O cálculo segue esta ordem:
- Some o valor das vendas de cada produto no período escolhido.
- Ordene os produtos do maior faturamento para o menor.
- Divida o faturamento de cada item pelo faturamento total.
- Some as participações, linha por linha, para encontrar o percentual acumulado.
- Aplique os limites das classes que você definiu.
No exemplo abaixo, os preços são constantes e não há descontos nem devoluções. Assim, o faturamento de cada item é a quantidade vendida multiplicada pelo preço. Em uma operação real, prefira o valor efetivamente registrado no relatório de vendas, com os ajustes previstos no seu critério.
Exemplo: cinco produtos e R$ 20 mil em vendas
Considere estas vendas de uma loja fictícia em 90 dias:
| Produto | Unidades vendidas | Preço unitário | Faturamento | Participação | Acumulado | Classe |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Garrafa térmica | 125 | R$ 80 | R$ 10.000 | 50% | 50% | A |
| Conjunto de potes | 150 | R$ 40 | R$ 6.000 | 30% | 80% | A |
| Lancheira | 75 | R$ 40 | R$ 3.000 | 15% | 95% | B |
| Caneca | 40 | R$ 20 | R$ 800 | 4% | 99% | C |
| Jogo de talheres | 20 | R$ 10 | R$ 200 | 1% | 100% | C |
As garrafas e os potes somam R$ 16 mil, ou 80% do faturamento. Eles formam a classe A nessa análise. A lancheira acrescenta 15% e fica na classe B. Canecas e talheres representam os 5% restantes.
Repare que o conjunto de potes vendeu mais unidades que a garrafa térmica, mas faturou menos. Ordenar somente pela quantidade daria outro ranking. Nenhum deles está necessariamente errado; cada um responde a uma pergunta diferente.
Quando um produto atravessar o limite entre classes, registre a convenção adotada. Uma planilha que classifica pela participação acumulada final pode colocar esse item na classe seguinte; outro relatório pode mantê-lo na anterior. O importante é entender a diferença e manter o mesmo critério nas comparações.
Como montar a tabela em uma planilha
Organize sete colunas: produto, quantidade, preço, faturamento, participação, acumulado e classe. Se os dados estiverem nas linhas 2 a 6, estas fórmulas funcionam em uma planilha configurada em português:
- Faturamento em D2:
=B2*C2 - Participação em E2:
=D2/SOMA($D$2:$D$6) - Acumulado em F2:
=SOMA($E$2:E2) - Classe em G2:
=SE(ARRED(F2;6)<=80%;"A";SE(ARRED(F2;6)<=95%;"B";"C"))
Ordene as linhas pelo faturamento antes de calcular o acumulado. Depois, copie as fórmulas para baixo e formate as colunas E e F como porcentagem. Para uma lista maior, ajuste a última linha da soma. O arredondamento na comparação evita que uma diferença residual do cálculo mude a classe de um item exatamente no limite.
Confira o total e a última participação acumulada. Ela deve chegar a 100%, salvo diferenças de arredondamento na exibição. Se não chegar, procure linhas fora do intervalo, valores armazenados como texto ou vendas que ficaram sem produto identificado.
O que fazer com o resultado na próxima compra
A curva ABC de estoque não informa sozinha quantas unidades comprar. Ela mostra onde vale investigar primeiro.
Na loja do exemplo, o responsável pelas compras pode começar verificando o saldo de garrafas e potes, o prazo de entrega e os pedidos já feitos. Se houver risco de falta, a reposição desses itens entra na discussão antes de uma compra grande de canecas.
Para transformar essa prioridade em quantidade, combine a classificação com o cálculo de estoque mínimo e ponto de pedido. Um produto relevante com fornecedor lento exige uma análise diferente de outro que chega no dia seguinte.
Também confira quanto cada venda deixa depois dos gastos variáveis. O faturamento de R$ 10 mil das garrafas não é lucro. Se a dúvida estiver na formação do preço, revisar a diferença entre markup e margem de lucro ajuda a interpretar o relatório.
Um item C pode completar uma compra maior, atender um cliente recorrente ou ter importância sazonal. Antes de tirá-lo do mix, confira essas funções. A classificação é um ponto de partida para a decisão, não uma ordem de descarte.
O que esse caso ensina a quem empreende
Nesta simulação, cinco produtos disputam atenção, mas dois concentram a maior parte do faturamento. A primeira mudança útil é dar mais cuidado ao acompanhamento desses itens, sem presumir que comprar mais deles sempre será a melhor escolha.
Uma rotina possível é revisar o ranking, separar os itens com risco de falta e confrontar a lista de compras com o dinheiro disponível. Essa última etapa pode ser feita no fluxo de caixa semanal.
Na ficha de cada produto prioritário, registre saldo atual, vendas recentes, prazo do fornecedor e próxima decisão. Depois da reposição, anote o que aconteceu: faltou mercadoria, sobrou estoque ou a demanda mudou? Isso cria um histórico de decisões que o ranking, sozinho, não entrega.
Dúvidas sobre curva ABC
Preciso de um sistema pago?
Uma planilha pode atender uma operação pequena, desde que os registros estejam corretos. Um sistema passa a ser mais útil quando há muitas variações, vários canais ou necessidade de atualização frequente. A qualidade da classificação continua dependendo dos dados.
De quanto em quanto tempo devo refazer?
Escolha uma frequência compatível com a rotina de compras. Uma loja que compra semanalmente pode acompanhar mudanças com mais frequência que outra com reposição mensal. Mantenha a mesma janela de análise para comparar resultados e revise separadamente períodos sazonais.
Produto sem venda entra em qual classe?
Em uma classificação por faturamento, ele terá participação zero. Vale separar esses itens para investigar: podem estar parados, recém-cadastrados ou ter ficado indisponíveis. Ausência de venda não explica, sozinha, a causa.
